quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Olhar

            

                   Fui ministrar um workshop de Criação Literária, na Biblioteca de Bragança Paulista, durante o 13º Festival de Inverno. Pedi ao motorista do ônibus para que ele me avisasse quando eu deveria descer. Sentei-me logo atrás dele. Depois de um bom tempo, perguntei:
           — Já estamos chegando?
            O motorista calmamente respondeu:
           — O seu ponto já passou. Tá lá atrás agora. Já estamos quase no ponto final.
            — Puxa, por que o senhor não me avisou?
            O motorista, sem sequer olhar pra trás:
            — Ué? Você não me avisou que estávamos próximos. Agora já era.
            Avisá-lo? Não seria o contrário? Agradeci, dei o sinal e desci, longe da biblioteca. Estava chateado, não por ter que andar várias quadras, pois eu gosto de caminhar. Fiquei chateado com o descaso do motorista. Ele não estava nem aí para mim. Mas também não foi só por isso. Antes, uma pessoa visivelmente portadora de deficiência pediu para embarcar, dizendo que havia esquecido a carteirinha. O motorista disse que ela podia embarcar, sim. Era só pagar.
            — Mas...
            Ele a ignorou até que ela pagasse. Regras são regras, mas não custa mostrar alguma empatia.
            Outra pessoa pediu ao motorista que abrisse a porta dos fundos, para acomodar uma grande caixa antes de embarcar. O motorista a ignorou, solenemente, enquanto cobrava de outros passageiros. Alguém, incomodado com o descaso, pediu:
            — Seu motorista, abre lá a porta pro moço colocar o pacote dele. Tá frio lá fora.
            O motorista não esboçou reação. Não abriu a porta e não estava mesmo nem aí pra ninguém. Era como se ele não nos visse.
            Estava ainda chateado com isso, quando pedi informação para chegar à biblioteca, a uma mulher parada no ponto:
            — Você é o André Kondo?
            “Puxa, será que eu já sou um escritor famoso?” – pensei. Que nada, a mulher, que se chamava Ana, coincidentemente estava indo para o meu workshop.
            Na biblioteca fui muito bem recebido. Falei sobre como eu havia viajado o mundo para buscar inspiração para me tornar escritor, e de como havia falhado. Somente em outra viagem, quando estava desiludido com o meu sonho de me tornar escritor, é que encontrei a inspiração necessária. E foi exatamente com as pessoas invisíveis que eu aprendi a ver. Quando convivi com mendigos, catadores de latinhas, pessoas que vivem à margem da sociedade, é que percebi que eu também não enxergava as pessoas, antes de me tornar uma pessoa invisível também. Não consegui escrever antes, porque eu estava escrevendo sobre os lugares que eu havia visto e não sobre o mais importante: as pessoas que estavam nesses lugares. Afinal, escrever, acima de tudo, é enxergar as pessoas... 
            Após falar sobre isso, uma garota que estava na biblioteca me entregou um presente. Ela havia me desenhado. E se ela me desenhou, é porque ela me enxergou! Quer presente melhor do que esse?


            O workshop continuou e os textos que foram sendo criados me deram esperança e alegria. A visão de mundo de cada um dos participantes me encheu os olhos. Ali estavam pessoas de vistas bem abertas! Que viam! Enxergavam a beleza da alma das pessoas. 
           Ao final do workshop, minha amiga Henriette e várias pessoas me ofereceram carona. Gentilmente, a Lyrss me levou, perguntando o horário do meu ônibus. Respondi que não tinha pressa, pois ele sairia dali a duas horas. Ana, a mesma mulher que encontrei no início desta história, nos convidou:
            — Eu moro perto da rodoviária. Que tal tomamos um café juntos. O que acham?
            Lógico que aceitei. Conversamos sobre várias coisas e eu fiquei impressionado com a visão da Ana. Visão, de fato. Ela trabalhou em uma ONG, desenvolvendo um trabalho com detentos. Cuidou de uma biblioteca penitenciária, desenvolveu um curso de costura para eles trabalharem. Mas, acima de tudo, Ana via os detentos. Falava com eles, aconselhava. Muitos mudaram de vida após saírem da cadeia. Ana ensinou-lhes um ofício, apresentou-lhes obras literárias, abriu-lhes os olhos para um novo mundo...
              Após o delicioso café, fui à rodoviária. Um mendigo, com a voz massacrada, um fio de lamento, me pediu dinheiro enquanto eu estava no guichê de passagens. Eu só o percebi quando ele se afastou de mim. Terminei minha transação no guichê, quando olhei para trás, ele não estava mais lá. Procurei-o com olhos ávidos, mas nada.
            Quando meu ônibus chegou, a voz bem baixa:
            — O senhor me ajuda?
            Peguei o trocado que tinha no bolso e o entreguei. O mendigo me disse:
            — Meu filho, onde quer que você esteja, eu vou estar sempre te desejando o melhor nessa vida. 
            Ao invés de dizer que Deus olharia por mim, ele me ofereceu o próprio olhar. Olhei pra ele se afastando, passos lentos. Embarquei no ônibus, desejando o mesmo a ele. Que as pessoas o enxergassem. E que todas as pessoas se enxerguem. E que sorriam com um olhar de cumplicidade.





Muito obrigado a todos da ASES, da Secretaria de Cultura e da Biblioteca Municipal de Bragança Paulista, pelo convite e pela belíssima tarde! Obrigado a todos os escritores participantes. Obrigado, querida Henriette, Regina, Bruno, André, Jade, Maria Cecília, Ana Carolina, Daniel, Fábio, Myrthes, Maria Ignez, Lyrss, Marcela, Ana Maria, Bruna, Apparecida, Cainã, Camila Porfírio e Camila Scopeta... E também, Maria Cristina, que passou por lá, a bibliotecária Ligia, Daniela Verde, Giliane, Paulinha. Obrigado, Rafaela, pelo belo desenho (você conseguiu me deixar bonito!). Que delícia de café, Ana. Obrigado! Esqueci de pedir a receita de como você prepara esse café cremoso. Obrigado ao motorista do ônibus, que não me viu, mas me levou a um lugar em que todos os olhares inspiram carinho. Obrigado, Bragança Paulista! 
           


            

8 comentários:

maria angela alvares cacioli disse...

O pessoal da ASES é muito receptivo mesmo. Saudades de quando participei de alguns eventos organizados por eles.

Maria Inês de Oliveira Chiarion Zecchini disse...

Adorei! que bom que o André conseguiu perceber que em nossa cidade, apesar da falta de postura desse motorista, existem pessoas que realmente fazem a diferença... ainda terei oportunidade de participar de um encontro com André Kondo

J Estanislau Filho disse...

Quantos invisíveis, anônimos deram seu suor para vivermos e vermos o presente. Que esta geração - minha geração - também deixe um bom legado às futuras gerações.

Anônimo disse...

Quantos invisíveis, anônimos deram seu suor para vivermos e vermos o presente. Que esta geração - minha geração - também deixe um bom legado às futuras gerações.

Anônimo disse...

Quantos invisíveis, anônimos deram seu suor para vivermos e vermos o presente. Que esta geração - minha geração - também deixe um bom legado às futuras gerações.

aline naomi disse...

Muito bom o post, André!
Lembrei de um motorista de ônibus (ando direto de ônibus e metrô!) comentando para uma passageira: "Preciso ter responsabilidade, porque CARREGO VIDAS". Um motorista poeta! :) Fiquei impressionada com o grau de comprometimento e visão de vida desse motorista.
Infelizmente há pessoas que fazem questão ou sentem prazer de não ajudar com coisas simples, acho estranho. No fundo tenho uma certa pena, não sei o que ganham com tanta mesquinharia.

Daniel Venâncio disse...

Muito legal a oficina literária, André. Parabéns!!

André disse...

Realmente, Maria Angela. O pessoal da ASES é incrível! Maria Inês, meus dias em Bragança foram muito agradáveis. Espero voltar mais vezes! J Estanislau, ótima reflexão... Aline, que legal! Acho que o motorista citado só estava em um mal dia. Conheço muitos motoristas gentis. Meu pai é motorista! E acho muito legal o fato do dia do escritor ser comemorado na mesma data do dia do motorista! Daniel, que bom que gostou! Muito obrigado a todos pelo carinho. Um grande abraço!