sábado, 3 de outubro de 2015

A peregrinação das folhas caídas

Há exatamente três anos, eu estava sentado na varanda da casa onde Hemingway nasceu...



Eu estava fazendo uma peregrinação literária pelos Estados Unidos, visitando os autores que me inspiraram a me torna um escritor. Uma viagem que começou em um quarto de asilo (em ala desativada) onde morei, cedido pelo tataraneto do barão de Mauá, o generoso Fernando. Lá escrevi, para um concurso literário, o livro "Cem pequenas poesias do dia a dia", apenas me inspirando nas coisas do quintal. A obra acabou vencendo o Prêmio UNIFOR, o que me deu direito a uma passagem aos Estados Unidos. As despesas foram pagas com o dinheiro que ganhei por outro poema em outro concurso.

Três anos depois, hoje, foi publicado no Diário Oficial que eu fui um dos selecionados para a Bolsa de Criação Literária do Programa de Ação Cultural do Governo de São Paulo, para me dedicar à escrita do livro que irá narrar, em poesia, essa peregrinação.

Há três anos, eu estava sentado na varanda da casa onde Hemingway nasceu... sem acreditar que a minha poesia havia me levado até ali.

Hoje, pela primeira vez, vejo que receberei, antecipadamente, para escrever... poesia.

A poesia é uma viagem que não termina, enquanto se acredita nela. Assim, sigo acompanhando a peregrinação das folhas caídas, deixando-me levar pelos ventos da poesia.




Obrigado ao Fernando, à UNIFOR, à UFSJ, a todos do ProAC, à minha família, aos meus amigos, à minha musa. Obrigado à poesia!


Ah! Um livro de poesia que nascerá de uma viagem proporcionada por um livro de... poesia. Isso não é poético?

domingo, 23 de agosto de 2015

E ainda me perguntam por que amo as palavras...

Neste mês tenho vivido muitas emoções proporcionadas pela literatura. Poderia citar os importantes prêmios literários recebidos (Paulo Setúbal, Lila Ripoll, Foed Castro Chamma, Felippe D’Oliveira), os eventos literários como o Baú de Letras com o “Amigos do Bem”, ler alguns capítulos da minha obra traduzidos para o inglês, ver uma criança abraçada à mãe lendo juntos o meu livro na praça, compartilhar o amor pelos livros com o meu pai, ver as ilustrações do Alessandro Fonseca para o meu novo livro, a exposição de haicais  do seu Orides, amigo e ex-aluno de minha oficina de criação literária – e não poderia me esquecer dos meus queridos alunos atuais e os antigos que revi, os e-mails que recebi, incluindo de escritores que admiro muitíssimo, como Marina Colasanti e Oscar Nakasato, mas, ainda há mais... Após a minha palestra na escola Magalhães, em Taubaté, uma aluna me pediu algumas palavras em seu caderno. Apenas algumas palavras. Ela me abraçou em lágrimas, dizendo que o sonho dela era ser escritora. Outros alunos me rodearam, para conversar sobre sonhos e realizações. O vice-diretor Mirro e a professora Nívea enviaram mensagens carinhosas de profundo agradecimento. E tudo o que eu fiz foi dar a eles... palavras. O que eu não imaginava era que essas palavras ecoariam de tal maneira, que voltariam a mim de forma tão emocionante.
Pois pedi permissão para postar o e-mail que recebi de outra aluna aqui, em meu blog, para que o eco de suas palavras possa ser ouvido por mais pessoas... Porque suas palavras são lindas:


Flores para abrir a palestra na escola Antônio Magalhães Bastos.

Olá! Meu nome é Nicole Rafaela da Silva Madona, tenho 16 anos e sou estudante no período da tarde da escola "Antonio Magalhães Bastos".
Venho por meio desse e-mail lhe agradecer imensamente pelo quanto me ajudou, e também lhe contar a minha história...
Nasci aqui no Brasil mesmo, em Taubaté-SP.
Sempre fui de família grande e humilde. Porém já começa aí!
Desde o meu nascimento minha mãe fazia papel de mãe e pai, fui registrada pelo meu pai biológico na época, ele fornecia pensão e tudo que eu precisava, mas mesmo assim eu não tinha a "figura" paterna presente ali comigo. E então sendo criada com dois irmãos (Nicollas e Douglas) mais velhos , fui construindo meu caráter ali, fui criando minha personalidade. Sou apaixonada por esportes, especialmente pelo futebol  amo assistir, jogar, torcer... Fui aprendendo coisas com o passar do tempo. Sempre fui extrovertida, por isso sempre tive vários "amigos". E então os anos iam passando e eu ia crescendo e tive mais dois irmão, uma menina (Nathalia) e um menino (Nathan)... Porém com o passar dos anos em 2010 minha mãe ficou doente, uma doença que não se sabia exatamente qual era, ela só daria pra ser totalmente diagnosticada após o avanço da doença. E com isso tive que começar a criar responsabilidades. Com 12 anos de idade eu arrumava a casa, cozinhava para meu padrasto, que eu tinha como pai, pros meus irmãos, estudava, acordava cedo pra arrumar e levar meu irmão pra escola, e de noite eu ia visitar minha mãe. Todos os dias que eu ia visitar minha mãe eu chorava na ida e na volta, pois ela era a ÚNICA pessoa que realmente me apoiava, que acreditava em mim e nos meus sonhos, e eu não suportaria perdê-la. E então em 2011 foi descoberta a doença. Era uma doença raríssima chamada "Penfigo", uma doença que era causada pelo sistema nervoso. Essa doença é horrível, deixa a pessoa totalmente deformada, e não tem cura, a saída mais desejada aos doentes que sofriam com essa doença  era a morte. Minha mãe era capaz de dizer que estava tudo bem, mesmo dando pra ver que não estava não, ela era capaz de mesmo internada em uma sala isolada ensinar as pessoas a amar umas as outras, ela me dizia o que fazer, o que dizer, o que ser. Ela me disse que no hospital ela passou os melhores anos da vida dela, pois a cada dia que passava ela se sentia mas perto de Deus, e ali ela viu e conviveu com os seus verdadeiros amigos. Já sem cabelos, pois a cabeça já tinha sido coberta de feridas ela me dizia que era linda. Mesmo com todas aquelas feridas ela se sentia linda.
Era de costume comemorarmos  nossos aniversários em uma só festa, do dia 13 ao dia 14 de Abril pois ela dizia que eu fui o presente de Deus pra ela pois nasci um dia depois dela ter comemorado seu aniversário em 99.
E aí no dia 22 de janeiro de 2013 recebi a notícia de que ela havia falecido. Fiquei sem chão, pois já sabia que desde ali minha vida iria se transformar... E foi exatamente isso que aconteceu. Vim morar com meu pai, em outra família com outros irmãos. A minha realidade já não era mais a mesma, já não fazia as mesmas coisas, minha rotina havia de tornado outra. Me sentia uma estranha nos lugares onde frequentava. Já não era a mesma escola, os mesmos amigos. Havia deixado tudo pra trás... Por muito tempo eu gosto de escrever, sempre fui muito boa com palavras. Me expresso escrevendo, só assim consigo colocar tudo pra fora. E vinha fazendo isso sempre... Mas não conseguia exatamente olhar pra dentro de mim mesma e achar razões pra viver... Em fevereiro desse ano perdi um grande amigo, alguém que estava comigo há vários anos. Foi aí que eu desanimei e começei a procurar pessoas que pudessem estar comigo, assim como minha mãe e meu amigo estavam...
Tinha uma família, pais novos, amigos novos, tinham novas pessoas a minha volta. Havia ganhado uma nova mãe, uma nova avó, mas mesmo assim me sentia sozinha... E ainda sentia saudade dos velhos tempos, e de tudo que havia ficado para trás!
Até que eu ouvi a sua palestra. No começo eu estava dispersa, sabia que era o que eu estava precisando, mas de tão covarde fechei meu coração pra não receber a verdade. Mas quando percebi já estava chorando e suas palavras soavam como direções, verdades, conselhos. E parecia que tudo aquilo que falava era pra mim... Fiquei de pé pra poder te ouvir e te ver pra absorver a sua energia.
Sua palestra me abriu os olhos, me ajudou, me surpreendeu!
Obrigada por me ajudar mesmo não percebendo, por me mostrar que mesmo com lutas é possível viver e que eu NUNCA estarei sozinha! 
Não sei se lembra de mim, mas você será alguém que jamais vou esquecer. Você marcou minha vida, minha história!
Obrigada! 




E ainda me perguntam por que amo as palavras...



Meus sinceros agradecimentos para a Nicole (você me emocionou e posso dizer que a minha alma se levantou para ouvir suas palavras e abraçar a sua energia) e também para a:
Profª Nivea, vice-diretor Mirro e a todos da Escola Antônio Magalhães Bastos.
Profª Esmeralda e profª Mércia.
Prefeitura de Tatuí e o Departamento de Cultura e Desenvolvimento Turístico.
Assembleia Legislativa do Estado do Rio Grande do Sul e o Departamento de Atividades Culturais.
Academia de Letras, Artes e Ciências do Centro Sul do Paraná.
Prefeitura de Santa Maria e Secretaria de Cultura.
Biblioteca Pública Municipal Henrique Bastide.
Elias Araújo, Isabele e Odemir Tex, por me representarem nas cerimônias literárias.
A todos os envolvidos na realização dos prêmios citados, que muito incentivam o fazer literário em nosso país.
Prefeitura de Jundiaí e Secretaria de Cultura.
Débora e a todos do Amigos do Bem e do Baú de Letras.
Edu Cerioni e todos do Portal JundiAqui.
Alessandro Fonseca pelas ilustrações, Leise pela tradução, JP pela revisão do novo livro (e sobretudo pela amizade).
Editor André (meu xará).
Editoras FTD, CEPE, JBC, In House.
Biblioteca Pública Municipal Prof. Nelson Foot.
Seu Orides e sua primeira dama Marlei pela exposição e calorosa recepção.
A todos os meus queridos alunos da Oficina de Criação Literária, incluindo os da primeira e da segunda turma que tive o prazer de rever neste mês.
Obrigado aos e-mails e mensagens que recebi sobre os meus livros e literatura. Além deste da Nicole, muito me emocionou os e-mails de Marina Colasanti e Oscar Nakasato, grandes escritores que admiro de coração. E também me alegrou muitíssimo o convite da escritora Viviane Veiga Távora para um evento em Cubatão pelo projeto Literatura Premiada (contemplado pelo MINC) e também da Flaviana para participar pela quarta vez consecutiva da querida Feira Literária de Caraguatatuba (FLIC). Obrigado! Ah! E também o e-mail recebido da Biblioteca Pública Municipal de Piracicaba que irá publicar o meu poema na antologia do Prêmio Escriba deste ano (e um microconto no livreto Microcontos de Humor), o convite para a antologia organizada pela escritora Vivian de Moraes com amigos de CL, a antologia recebida da Universidade Federal de São João del-Rey, com o meu poema publicado, a premiação de um haicai no III Festival de Haicai de Petrópolis... Para todos os que me proporcionaram essas alegrias, muito obrigado! 
Muito obrigado também para a minha musa-esposa, minha mãe, meu pai, minha irmã, enfim, minha família e amigos, pelo apoio e carinho!

Para quem leu os agradecimentos até aqui, acho que deu para perceber que um escritor tem muitas pessoas para agradecer ao longo de apenas um mês de sua trajetória (isso mesmo, as interações acima ocorreram apenas neste mês!). Esta lista seria infinita, se eu tivesse que agradecer a todos que me ajudaram desde o início de minha carreira (imagine na vida, então?). Sei que devo ter esquecido de mencionar alguém importante, desculpe-me por isso... O nome que mais tento lembrar é o da menina que sonha em ser escritora. A ela, o meu agradecimento também, por acreditar no sonho literário. Se você estiver lendo isso, saiba que desejo muita força, coragem e, sobretudo, determinação para que, um dia, eu possa me emocionar com suas palavras também.
Enfim, muito obrigado a você, que me lê!


Foto tirada após a palestra, em frente à escola Antônio Magalhães Bastos - Taubaté.

terça-feira, 10 de março de 2015

Presentes

É muito bom sentir gratidão. É isso o que estou sentindo agora, ao folhear a obra "Gifts from the Forest/Presentes da Floresta", publicada pela Seicho-No-Ie no Japão. Minha avó sempre seguiu o "Princípio do Relógio do Sol", que consistia em viver com alegria, observando o lado positivo de todas as coisas do dia a dia. Anteontem, fui à casa da minha avó (sempre será a casa da minha avó, mesmo que ela não more mais lá).



Confesso que senti preguiça de sair de casa. Estava chovendo forte, e eu teria que pegar três ônibus e um metrô para chegar à casa dela. Tomei coragem, meio desanimado. Ao chegar na rodoviária do Tietê, vi uma senhora carregando uma mala com dificuldade. Ofereci-me para ajudá-la e assim a acompanhei. Ao ver o rosto dela, vi traços de dor a cada passo, mas o sorriso não lhe saía do rosto. Ela estava feliz porque estava ali para reencontrar alguém querido. Era só isso o que ela via, ignorando a dor, pois o sorriso falava mais alto. E aquele sorriso me lembrou do sorriso da minha avó... Como pude me sentir desanimado para ir à casa dela, reencontrar pessoas que amo?
Ao chegar, ajudei a preparar o bifun para o almoço. Minha tarefa era das mais simples, cortar pedaços de repolho com as mãos. Minha mãe me disse: "era o serviço da batchan". Sim, por mais cansada que ela estivesse, minha avó sempre queria ajudar. Ela sentia gratidão por isso, sentia-se feliz por poder ajudar... Foi um domingo chuvoso, mas senti o sol quando comecei a cortar o repolho. Após o delicioso almoço, minha mãe me entregou o exemplar de "Presentes da Floresta", com o meu texto publicado nele. Imaginei o quanto a minha avó ficaria feliz ao ver o texto do neto naquele livro. Ela sempre nos presenteava com calendários e publicações da Seicho-No-Ie... O que ela sentiria ao ver um texto do neto em uma dessas publicações?
Pela sacada, olhei para o céu nublado e a chuva. Dali, onde eu estava, não podia ver nem minha avó, nem o sol. Mas ainda assim, sorri, ao sentir que ela estava feliz, lendo o livro em algum lugar ensolarado, onde ela chegou após tanto sacrifício nesta vida, sem nunca ter perdido o sorriso.






O livro contém os seguintes contos infantis:

Mírian, a minhoca que saiu da toca - Claudia Zippin Ferri (Brasil) - Grande Prêmio.
A plantação de melancia - Claire Matsumoto (EUA) - Prêmio de Excelência.
A semente de Girassol - Mai Mizui (Japão) - Prêmio de Excelência.
Yukio caiu no rio - André Kondo (Brasil) - Menção Honrosa.
O céu noturno - Erika Davies (EUA) - Menção Honrosa.
A raposa Konta e o Dr. Konta - Kyoko Miyata (Japão) - Menção Honrosa.
O enigma do sol - Vivien Hellen Santos de Carvalho (Brasil) - Menção Honrosa.
A árvore da mesa - Yuumi Hasegawa (Japão) - Menção Honrosa.


Muito obrigado, SEICHO-NO-IE! どうもありがとう , Thank you!

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

O que é ser escritor?

Em uma semana, participei de vários eventos literários em três cidades: Jundiaí, Pindamonhangaba e Maringá...



        Participando da Festa Literária de Maringá, minha primeira palestra foi sobre “O processo criativo”. Foi um assunto leve, assim como é o ato da criação literária. No dia seguinte, falei sobre a “Produção literária”. Foi então que o assunto se tornou denso. Afinal, comparei o ato da criação literária ao amor, ao êxtase. E o que seria a produção literária? Seria o parto e suas dores, seria carregar um filho pelo mundo até que ele fosse capaz de caminhar por si só. Portanto, seria fácil escrever, difícil seria dar vida ao texto em uma publicação.
          Tomei por base a minha experiência pessoal, as dificuldades da primeira edição, as frustrações de tentar vender os meus primeiros livros. Por muitas vezes, sentimos vergonha de vender aquilo que produzimos. Por outras, achamos até incorreto, afinal, quem vende um filho? Falo isso no caso da autopublicação, que nada mais é do que pagar para ser publicado. Aí, falei do peso do sonho.
          Para a minha palestra em Pindamonhangaba, saí de casa às quatro da manhã, carregando 200 livros. O carrinho com os exemplares quebrou já no atravessar da primeira avenida, antes de tomar o meu primeiro de três ônibus urbanos e dois intermunicipais, em uma viagem de cinco horas. Eis o peso do sonho: carregar o peso de 200 livros como se carrega um bebê.




          Quando falei sobre isso, queria que as pessoas tivessem a consciência de que não é fácil realizar um sonho. Que é preciso esforço. Em meu último evento na FLIM, uma mesa literária com o grande escritor Roberto Torero, uma fila se formou ao final, com leitores esperando por um autógrafo dele. É essa a imagem que muitos sonhadores têm de um escritor. Mas não é sempre assim. A realidade da maioria dos escritores é uma mesa repleta de livros, mas quase ninguém para comprá-los. Em meu primeiro evento de lançamento, vendi 108 livros e fiquei exultante. Sucesso! Só depois é que percebi que destes 108 livros, apenas um havia sido vendido a uma pessoa que eu não conhecia. Cento e sete livros foram vendidos para familiares e amigos. Por outro lado, ao realizar o lançamento do mesmo livro em uma cidade na qual não tinha família ou amigos, vendi apenas dois exemplares. E os dois foram vendidos a um amigo que, por acaso, estava lá.
          Expus em minha palestra que se alguém tinha o sonho de ser escritor, que ele deveria estar preparado para suar, para carregar livros, para não se abater com o fracasso de vendas inicial, para não ter vergonha de vender o seu livro. De acreditar nele. Critiquei as antologias cooperativadas de concursos literários que premiam o autor com o direito de pagar algumas centenas de reais para ter uma ou duas páginas no livro. Acabei sendo duro com autores que pagam para serem publicados, assim como eu havia feito no passado.
          Foi então que, ao final da palestra, a escritora Jeanette De Cnop me fez uma pergunta que me fez refletir: “Mas será que você não está levando muito a ferro e fogo?”...
          Sim, eu estava. Ela disse que um escritor pode escrever e trabalhar com outra coisa também. Eu estava até sendo arrogante, pois mesmo inconscientemente, eu me incluía no grupo que vê a vida de um escritor apenas como a de alguém como o Torero, vencedor do Jabuti. Então, escritor seria apenas aquele que vive do que recebe com sua escrita? Será que ser escritor é isso? A opção de viver exclusivamente da minha escrita era minha, e com ela, todas as privações ligadas a esta escolha, como viver frugalmente, pois os ganhos são escassos.



          Durante a FLIM, vi escritores maravilhosos, que batalhavam a venda de seus livros. Quando comprei um livro da escritora Eliana Jimenez, ela não queria pegar o meu dinheiro. E só se sentiu melhor quando comprou um livro meu. E assim comprei livros das escritoras Marilza Conceição e Adriana Zanetta, que compraram os meus também. Comprei algumas coletâneas da Academia de Letras de Maringá, e a Sumiko, esposa do acadêmico Jaime Vieira estendeu o dinheiro para que eu não tirasse um centavo do meu bolso! Aí, dei um livro meu de presente a ela. Depois, a coisa foi para o escambo mesmo, e troquei livros com os escritores Benevides Garcia, Carlos Brunno e a família Rogério (um livro de poesia coletivo, feito por uma família!). Além de escritores, eles eram professores, advogados ou aposentados, que duramente trabalharam por toda a vida nos mais diversos ofícios. Escreviam não por dinheiro, mas por algo maior. Por fim, após dar um livro meu para o Torero, até ele gentilmente me deu um livro dele de presente. Aliás, Torero ainda é jornalista, roteirista e cineasta.
          Minha palestra foi dura. Sei que às vezes é preciso ouvir certas coisas, mas aquele não era o momento. Nem todos ali queriam ser escritores que vivem exclusivamente da escrita, como eu. Muitos só queriam escrever. E aí é que me toquei. Produção literária não é publicação e impressão de livro. Errei feio. Produção literária é escrever belos textos e não a produção de um produto para venda. Aos participantes, peço desculpas pelo meu grande equívoco. 
          Voltando ao peso dos meus livros carregados para a ETEC de Pindamonhangaba, todos os exemplares foram comprados pelos alunos, professores e funcionários, sendo o dinheiro arrecadado integralmente destinado ao GRENDACC (Grupo em Defesa da Criança com Câncer). Os livros eram da primeira tiragem, que havia sido financiada pela Secretaria de Cultura de Jundiaí, em um projeto parcialmente destinado para isso. Então, não ganhei nada com aquela venda? Ganhei sim, imensamente. Afinal, quando fazemos nosso trabalho com amor, recebemos amor. Fui lindamente recebido por todos da escola, sentindo um carinho que fez com que todo o peso do mundo não significasse nada. Eis a leveza do sonho realizado. E assim também foi em minha palestra durante a Semana de Cultura e Línguas Estrangeiras, promovida pelo Centro Municipal de Línguas em Jundiaí, quando além do carinho, ganhei uma caneca de presente, na qual sorvo um revigorante chocolate enquanto escrevo este relato.


          Assim como há médicos que são voluntários por um período e nada ganham, por amor à medicina... Assim como há pessoas que doam um pouco do seu trabalho e nada recebem por suas causas beneficentes, assim também podem ser os escritores, que não precisam apenas de dinheiro para executarem o seu ofício literário. Afinal, ser escritor não é aquele que vive com o que ganha pela sua escrita, como eu pensava. O dinheiro pode vir da venda dos livros ou de qualquer outra coisa. Enfim, aprendi que ser escritor não é viver de literatura, mas viver por amor a ela.  





Como escreveu o grande A. A. de Assis, Patrono da FLIM:

“Tem muito mais graça a vida
quando a gente tem com quem
repartir bem repartida
a graça que a vida tem”.



Muito obrigado a todos da Escola ETEC João Gomes de Araújo, do Centro de Línguas Antonio Houaiss, da Secretaria de Cultura e Prefeitura de Maringá, da Academia de Letras de Maringá, enfim, obrigado a todos pelo carinho! Encontros como esses desta semana é que fazem valer a pena a vida de um escritor.

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Minha avó mentiu pra mim

Minha avó mentiu pra mim. Nunca imaginei que ela pudesse fazer isso, mas em uma quarta-feira, ela me enganou. Não apenas a mim, mas a toda a família. Ela disse que viveria até os cem anos. Ela mentiu. Aos 91, ela serenamente fechou os olhos e não mais os abriu.
Minha irmã ligou, disse que nossa batchan havia morrido. Não acreditei. Imediatamente, fui até a casa da minha avó. Fui até lá, na esperança de vê-la sentada em sua poltrona, com as suas contas de oração nas mãos, deslizando os dedos, que tantas vidas haviam trazido a este mundo. E falo em vida, não apenas da minha e de todos os filhos, netos e bisnetos, mas também a vida de tanta gente que ela trouxe como parteira de uma cidadezinha do interior. 
Aquelas mesmas mãos, firmes no caratê, suaves ao piano. Aquelas mesmas mãos que curavam o corpo na precisa quiropraxia. Aquelas mesmas mãos em prece que curavam a alma em sua fé, não apenas em uma religião, mas em um Deus que estava em todas as coisas, até em um copo quebrado em seu altar. Buda, Nossa Senhora de Aparecida, Jesus Cristo, um livro da Seicho-no-iê, santinhos. “Tudo bom”, minha avó dizia. E agradecia. Agradecia pelo frescor da chuva, pelo calor do sol, pela melancolia dos dias nublados, pela alegria dos dias ensolarados. Tudo bom...
Não podia ser verdade que ela havia ido assim, aos 91 anos. Faltavam ainda nove anos, nos quais eu poderia me sentar ao seu lado e escrever um livro sobre a sua vida, que lançaria quando ela completasse cem anos.
Mas não foi assim...
Para tentar antecipar essa alegria, até dediquei a ela o meu primeiro livro infantil, O pequeno samurai, que eu havia escrito em 2009, há cinco anos. Em 2010, esse livro conquistou o meu primeiro contrato de verdade com uma grande editora. Esperei pacientemente (nem tanto), até que, finalmente, o livro ficou pronto há apenas algumas semanas. A minha editora enviou o primeiro exemplar. Emocionado, imaginei a minha avó lendo a dedicatória:





Ensaiei como mostraria a dedicatória a ela. Em um lançamento especial? Como seria? Com festa? Onde? Como? Talvez no aniversário de 92 anos de minha avó? Eu queria ter dado o livro quando ela completou 90 anos, mas ele não havia ficado pronto. Tudo bem, eu ainda teria tempo... Finalmente, com o livro em mãos, pensava: “quando terminar de dar aulas na minha oficina literária, pensarei melhor sobre isso”. Mas, exatamente, no último dia de aula, minha avó faleceu...
Fiquei com o livro em minhas mãos, olhando para a dedicatória que minha avó não viu...
Fiquei com o coração apertado, triste com a minha batchan, porque ela havia mentido para mim. Ainda teríamos que ter nove anos, no mínimo, para fazer o lançamento deste e de outros livros e, principalmente, do livro de sua vida. Uma vida de sobrevivente de bombardeio, de alguém que enfrentou os golpes da vida, que cedo perdeu o marido, que criou os filhos com dignidade e amor, que foi imigrante que chega a uma terra desconhecida, sabendo apenas uma palavra que usou pela vida inteira: obrigada.
Ao chegar à casa da minha avó, ela não estava mais lá, em sua poltrona. As contas de oração estavam sobre a mesa, silenciosas. Minhas lágrimas foram seguidas por um sorriso. Minha tia me relembrou que aquelas contas, que passaram diariamente pelas mãos de minha avó, em sua reza diária de agradecimento, haviam sido trazidas por mim, na volta de minha primeira viagem ao Japão. Como eu poderia ter me esquecido daquilo? E senti uma gratidão imensa no peito, por saber que ela as havia acariciado por quinze anos. Senti uma alegria por saber que, de alguma forma, eu havia ficado perto dela durante todo esse tempo. Mesmo quando eu estava morando em outros países ou viajando pelo mundo, eu estava perto dela...
As contas de oração estavam sobre a mesa, não mais nas mãos de minha batchan. Reencontrei-a apenas com as mãos entrelaçadas, frias. Lembro-me das últimas palavras que minha avó havia me dito, em japonês, quando ela segurou em minha mão: “suas mãos são tão quentes, ah, gostoso, né”. Coloquei minhas mãos sobre as da minha avó, tentando aquecê-las. Mas, desta vez, não consegui...
Então, coloquei o livro, dedicatória e tudo, por debaixo das mãos de minha avó. E eu sei que ela não irá ler aquele livro. Sei disso, porque ela não aprendeu a ler muito bem o português. Mas ela reconhecerá as letras que desenham o seu nome, sobre pétalas de cerejeira. E sei que ela irá sorrir, como sempre...
Minha avó mentiu pra mim. Ela disse que viveria até os cem anos. Mas não posso ficar magoado por isso. Devo me alegrar, pois a verdade é que ela viverá muito mais. Ela viverá pra sempre, enquanto o meu e o “pra sempre” de todas as pessoas que ela trouxe à vida durarem...

Arigatô, batchan! Arigatô... para sempre.


quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Causos e lendas do Porto Novo

Tive o prazer de escrever um dos textos de apresentação do livro "Causos e Lendas do Porto Novo", uma iniciativa da Fundacc por meio da APMC, em parceria com a Secretaria Municipal de Educação de Caraguatatuba. O lançamento será amanhã (22/08/2014), a partir das 10:30, na Praça Dr. Cândido Motta. Será uma grande festa aberta ao público!

Eis o livro:


Prazer, sou “Causos e Lendas do Porto Novo”.


            Apresentar um livro como este não se faz apenas com palavras, mas vou tentar. Queria mesmo é oferecer uma caneca de bom café e um dedo de prosa na beira do rio, que assim é que se apresenta um bom livro de causos e lendas. E teria que ser no Porto Novo!
            Eu mesmo já morei por essas bandas, e comecei a escrever meus próprios causos por aí. Tive o prazer de declamar poesia com o Maurício Poeta na praça Cândido Mota e de me emocionar com a performance do Caddu no Teatro Mário Covas. Acho que eles não se lembram, talvez até pensem que isso é lenda, mas é verdade. Agora, nos reencontramos nestas páginas: eles contando bons causos do nosso povo e eu só abrindo os olhos com mais curiosidade, como deve ser um bom encontro caiçara.
            Também já tive a felicidade de contar meus causos para as crianças e jovens de Caraguá, nas escolas e durante a grande festa da 2ª Feira Literária de Caraguatatuba (FLIC). Não há momento mais mágico do que este, em que as palavras se libertam e viram histórias. Nunca me esquecerei desta emoção! Aproveitando, vou até contar um causo de assombração.
            Certa vez, quando viajava a pé por Minas, acabei dormindo em uma capelinha na beira da estrada de terra. Já era madrugada quando ouvi passos. Seria assombração? Acordei, ainda meio enrolado no saco de dormir, e fui dar uma espiada. A porta da capelinha rangeu e eu vi, lá fora, um bêbado. Cadê a assombração? A assombração era eu, porque o bêbado pensou que eu fosse alma penada, fez o sinal da cruz e jurou por Nossa Senhora que nunca mais ia beber. Saiu correndo estrada afora, parecia até sóbrio! Com certeza, no dia seguinte, deve ter contado pra todo mundo sobre a “assombração da capelinha”.    
            Contei este causo pra mostrar que, quem sabe, nossa vida real não vira uma boa lenda? Afinal, toda lenda tem um fundo de verdade e toda realidade, um pouco de mentira, só pra vida continuar essa beleza que é... E vamos aos causos e lendas do Porto Novo, que é por isso que estamos aqui!



Mais informações sobre o livro, AQUI ou no site da FUNDACC.

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Minicontos

Estou muito feliz com o resultado do I Concurso de Minicontos promovido pela Secretaria de Cultura de Jundiaí, divulgado na Imprensa Oficial do dia 13 de Agosto de 2014. Mais legal do que ser classificado é ver o nome do pessoal da minha 1ª Oficina de Criação Literária entre os premiados, cujos trabalhos serão publicados em livro! Parabéns! Estou muito orgulhoso de todos vocês!

Autor

Título do Miniconto
André Telucazu Kondo
Flores

Bárbara Nóbrega Mangieri
Sinal Vermelho

Carla Mirela Cavallini
Fósseis de Dragão

Mayara Amaral Pazeto
Parque de Dinossauros

Nitiayne Mille Takemoto
Só no Chat

Rogério Heitor Carraro

Recreio
Sabrina Fagundes

O Destino da Rosa
Silvana Helena da Silva Felipe
Eu vi...







PS: Nem todos os alunos participaram do concurso, mas todos, classificados para o livro ou não, sem exceção, publicaram suas letras no meu coração! Obrigado por essa alegria!